O Peso da Expectativa: A Armadilha da Romantização para o Autista Adulto
Esta é uma análise complexa e crucial. A crescente visibilidade do Transtorno do Espectro Autista (TEA) na mídia, impulsionada em grande parte por figuras públicas e ativistas, tem sido fundamental para combater o estigma. No entanto, essa mesma visibilidade frequentemente traz consigo um "filtro" de privilégio, criando uma narrativa romantizada que pode, inadvertidamente, prejudicar a maioria.
Ana Oliveira
11/14/20254 min read


Nos últimos anos, o autismo saiu das sombras. Graças ao esforço incansável de ativistas, pais e autistas adultos, o "anjo azul" deixou de ser um símbolo de tragédia silenciosa para se tornar uma pauta de inclusão. Figuras públicas, como o apresentador Marcos Mion, que transformou sua jornada pessoal com o filho Romeo em uma bandeira, foram cruciais para furar a bolha da desinformação e impulsionar avanços legais, como a "Lei Romeo Mion".
Essa visibilidade é uma vitória inegável. Contudo, ela expõe um dos maiores desafios do debate atual: a tendência de romantizar o TEA e, mais perigosamente, a criação de um viés socioeconômico que define quem tem acesso ao "final feliz".
A narrativa que ganha palco é, muitas vezes, a do autismo "inspirador": a criança que, apesar das dificuldades, demonstra um talento único; o jovem que vê o mundo de forma "pura"; ou a história de superação que termina em aplausos.
O problema, como apontado na sua provocação, é que essa narrativa frequentemente sugere que o TEA é um desafio "fácil e igual para todos". E ele não é.
O Viés da Representação: O Palco e os Bastidores
Quando uma figura pública com vastos recursos fala sobre o autismo, ela fala a partir de um lugar de privilégio. Isso não diminui sua luta, seu amor ou as dificuldades reais que enfrenta. No entanto, as ferramentas que ela possui para lidar com o desafio são radicalmente diferentes daquelas disponíveis para a maioria da população.
O Palco (A Realidade com Recursos):
Na narrativa dominante, a jornada do autismo envolve dificuldades, sim, mas também envolve acesso imediato aos melhores especialistas.
Diagnóstico: Rápido, com neuropediatras renomados.
Intervenção: Dezenas de horas semanais das terapias mais indicadas (como ABA, integração sensorial, fonoaudiologia), muitas vezes em clínicas particulares de ponta.
Educação: Escolas especializadas ou colégios particulares de elite com equipes robustas de mediação e adaptação curricular.
Rede de Apoio: Acesso a cuidadores, terapeutas ocupacionais e a possibilidade de um dos pais (ou ambos) gerenciar o cuidado sem que isso signifique o colapso financeiro total da família.
Nesse contexto, a "luta pela causa" se concentra, compreensivelmente, na aceitação, no combate ao preconceito e na celebração das diferenças.
Os Bastidores (A Realidade Sem Recursos):
Para a vasta maioria das famílias, especialmente aquelas dependentes do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil, a realidade do TEA não tem nada de romântica. Ela é uma luta diária pela sobrevivência.
Diagnóstico: Filas de espera que podem durar anos no SUS para conseguir uma consulta com um neuropediatra ou psiquiatra infantil. Muitas crianças chegam à adolescência sem um laudo formal.
Intervenção: Quando conseguem acesso (via CAPS ou centros de reabilitação), as terapias são, muitas vezes, insuficientes. Em vez das 20 ou 40 horas semanais recomendadas em alguns métodos, a criança pode receber 30 minutos de fonoaudiologia quinzenalmente.
Educação: A realidade da "inclusão" na escola pública é, frequentemente, a da exclusão. Faltam mediadores, professores de apoio (AEE) e estrutura. A criança é "aceita" na matrícula, mas abandonada na sala de aula.
Rede de Apoio: A responsabilidade recai quase inteiramente sobre a mãe (a "mãe atípica"), que é forçada a abandonar o emprego para peregrinar por laudos e terapias, aprofundando o ciclo de pobreza.
O Perigo de Acreditar que é "Fácil e Igual para Todos"
A romantização do autismo, filtrada pelo viés de classe, é perigosa por várias razões:
Cria Expectativas Irreais: A sociedade passa a esperar que toda pessoa autista seja um "gênio incompreendido" ou que toda família consiga "superar" o diagnóstico com amor e dedicação. Isso gera culpa e frustração nas famílias que, mesmo tentando tudo, não veem o progresso televisionado.
Invisibiliza a Deficiência: O TEA é um transtorno do neurodesenvolvimento e, para muitos, é uma deficiência severa. Focar apenas nos aspectos "quirky" ou "especiais" ignora as comorbidades, as crises sensoriais, as dificuldades de comunicação, os comportamentos desafiadores (como agressividade ou autoagressão) e a necessidade de suporte vitalício que muitos autistas (níveis 2 e 3 de suporte) exigem.
Mascara a Urgência Política: Se o público geral acredita que o autismo é apenas "um jeito diferente de ser", diminui-se a pressão social por políticas públicas eficazes. Por que investir massivamente em centros de terapia públicos se o que falta é apenas "aceitação"? A romantização mascara a necessidade urgente de investimento em saúde, educação e assistência social.
Silencia a Realidade Severa: A narrativa do "anjo" ou do "gênio" silencia a dor da família que lida com um filho não verbal que se automutila, ou do adulto autista que não consegue manter um emprego devido à rigidez sensorial e social.
Conclusão: Da Visibilidade à Equidade
Não se trata de desmerecer a luta de figuras como Marcos Mion. A visibilidade que ele e outros trazem é um capital político essencial. A questão é o passo seguinte.
Precisamos usar essa visibilidade não para criar uma história única e inspiradora, mas para jogar luz sobre o abismo que separa quem pode pagar pelo tratamento e quem depende do Estado. A luta pela "causa" não pode ser apenas sobre "conscientização". Ela precisa ser, urgentemente, sobre justiça social e acesso equitativo.
Enquanto a história contada for a de que "tudo dá certo" com amor e acesso às melhores clínicas, continuaremos falhando com a mãe que espera há dois anos por um diagnóstico no SUS e com o adulto autista que está desempregado.
O autismo não é igual para todos. A forma como a sociedade lida com ele, no entanto, deveria ser. A verdadeira inclusão não é romantizar o espectro; é garantir que todos, independentemente da conta bancária, tenham direito ao diagnóstico digno, à intervenção baseada em evidências e, acima de tudo, ao suporte necessário para existir.